Esteróides Anabólicos Androgênicos (EAA)

Parte 2

Autor: Bassit R.A.

2003

Esteróides Anabólicos Androgênicos (EAA)

Parte 2

Dr. Reinaldo Tubarão Bassit

Para que o EAA exerça o efeito esperado sobre a performance, é necessário o estímulo adequado através do exercício com grandes sobrecargas (ex: musculação). Alguns estudos mostram que atletas experientes, os quais são capazes de treinar com cargas pesadas, e conseqüentemente produzir maior tensão muscular durante o exercício, apresentam aumento da performance com o uso da droga quando comparados aos atletas novatos. No entanto, a eficácia da droga é dependente de receptores hormonais que apresentam seus sítios livres, permitindo assim a ligação com o hormônio e o conseqüente efeito fisiológico.

Existem evidências de que com o treinamento de força pode ocorrer um aumento de receptores hormonais com sítios livres, aumentando a eficácia do EAA. Dessa forma, fica claro que não basta apenas o estímulo  dos EAA sobre os receptores presentes na célula muscular, nem a ativação da síntese de enzimas que atuam no metabolismo protéico, com o conseqüente aumento da síntese de proteínas e inibição da sua degradação. Para que ocorra o efeito esperado sobre a performance, deve haver, também,  quantidades adequadas de receptores hormonais presentes na superfície das células musculares.

Deve ser enfatizado que em humanos, a maior parte dos receptores para esteróides se encontra quase que totalmente saturados. Assim, na tentativa de obter os efeitos fisiológicos desejados, os indivíduos passam a administrar grandes doses da droga (aproximadamente 300 a 400mg/semana), tendo relatos de casos que o uso chegou até 2.000mg/semana.

Segundo alguns pesquisadores, os EAA podem prevenir a "quebra" (degradação)  do tecido muscular em conseqüência  do exercício intenso, e aumentar a velocidade de recuperação após o mesmo. Esse efeito pode ser atribuído à capacidade dessa droga em bloquear o efeito do Cortisol, hormônio catabólico, no músculo, envolvido com a degradação das proteínas. Esse hormônio, produzido pelo córtex adrenal, também tem sítios de receptores dentro da célula muscular, os quais podem ser bloqueados pelos EAA. Enquanto isso parece ser benéfico para atletas que consomem esse tipo de droga, os efeitos colaterais, quando se interrompe a ingestão, são considerados desastrosos.

Com o uso dos EAA a secreção endógena de testosterona diminui. Com a interrupção do uso, os sítios receptores para o Cortisol e a sua secreção aumentam. Esses fatos aliados à menor produção de Testosterona aumentam o efeito catabólico do cortisol, gerando a rápida diminuição do tamanho e da força muscular adquirida durante a fase de uso. Além desse efeito indesejável, outros efeitos colaterais podem ocorrer. Devido as propriedades androgênicas e anabólicas dos EAA compartilharem o mesmo receptor, os efeitos considerados desejados (anabólicos) podem ocorrer simultaneamente aos considerados indesejáveis (androgênicos) ou colaterais. Esse fato pode ser bem observado quando os EAA são administrados em mulheres. Nesse caso, pode ocorrer o engrossamento da voz, aumento da oleosidade da pêle e conseqüente acne, aumento de pêlos no corpo, queda de cabelos, e hipertrofia do clitóris, que podem ser considerados irreversíveis.

Por outro lado, o uso indiscriminado dos EAA pode desencadear, em indivíduos do sexo masculino, o efeito denominado de feminilizante, resultado da conversão dos esteróides em estradiol e estrógeno (hormônios considerados femininos). Assim, em alguns indivíduos pode aparecer o que chamamos de ginecomastia, que nada mais é que o aumento da glândula mamária. Esse estado parece ser causado pelo aumento de hormônios femininos circulantes, conjuntamente com a diminuição da sua remoção (clearance), como resultado do prejuízo da função hepática (lesão do fígado), e/ou um estado temporário de hipotestosteronemia (diminuição da testosterona circulante). O uso de outra droga, a Tamoxifen, pode ser administrado na tentativa de antagonizar o efeito dos hormônios femininos circulantes mas, na maioria dos casos esse efeito é irreversível, e o procedimento cirúrgico se torna a única saída. A ginecomastia é um problema aparentemente apenas estético, mas a chance desse tipo de lesão se tornar, por exemplo, um tumor maligno, não é descartada.

Ainda, com a diminuição dos níveis normais dos hormônios masculinos e o concomitante aumento dos níveis dos hormônios femininos (aumento de até sete vezes) ocorre diminuição da libido, quando indivíduos podem apresentar um quadro de impotência sexual temporária.

Quanto aos efeitos colaterais no fígado, os EAA administrados por via oral são considerados mais tóxicos do que os utilizados de forma injetável (via intravenosa). Entretanto, esse fato não isenta os EAA, independentemente da via utilizada, de seus efeitos colaterais.

Outros efeitos colaterais podem ocorrer como o aumento da próstata e posterior desenvolvimento de câncer (incidência de aproximadamente 60% nos usuários de EAA), diminuição do HDL  o "bom colesterol", e até aumento de lesões musculares e nos tendões devido ao excessivo aumento das sobrecargas de treino. Esse último pode ser considerado um efeito colateral indireto. Ainda, o uso dos EAA por indivíduos em fase de crescimento acelera a calcificação das cartilagens ósseas levando a interrupção precoce do crescimento dos ossos, assim, esses indivíduos não conseguem atingir a estatura esperada.    

Em resumo, devemos alertar a população atlética e principalmente os praticantes de atividades físicas sobre os riscos da utilização dos EAA, sendo que pesquisas científicas melhor formuladas, combinadas com esforços educacionais no sentido de informar os indivíduos, deveriam enfatizar as possibilidades alternativas para o uso dos EAA tais como, o treinamento correto, o descanso adequado, a alimentação balanceada, assim como, o uso de suplementação nutricional.