Creatina (Parte-1)

Reinaldo Tubarão Bassit
Mara Assis Malverdi

Para a manutenção e realização de suas diversas funções, o organismo humano necessita receber um suprimento de energia contínuo, de maneira ininterrupta, sendo que essa energia é proveniente da alimentação. No entanto, a mesma não é liberada subitamente, pois se isso ocorresse um indivíduo ao se alimentar se transformaria em "chamas". Na verdade as células do nosso organismo utilizam apenas a energia química, extraindo-a das moléculas dos nutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas) contida nos alimentos. Esse processo de extração é lento, e ocorre em pequenas quantidades, reduzindo a perda de energia na forma de calor. Dessa forma, o organismo transforma energia térmica em energia química, disponibilizando essa última para o trabalho celular.

A maneira pela qual o organismo recolhe e conduz essa energia, e a torna disponível na forma de energia química, se dá através de um composto denominado ATP (trifosfato de adenosina), que funciona como um receptor-doador de energia. O ATP é o principal composto rico em energia, e é formado pelos nucleotídios adenina e ribose (resultando em adenosina), ligados a 3 moléculas de fosfato (átomos de fósforo e oxigênio), unidos por ligações de alta energia.

A hidrólise do ATP libera uma molécula de fosfato formando um composto denominado de ADP (difosfato de adenosina), reação essa que libera aproximadamente 7,3 Kcal por molécula de ATP hidrolisado. Quando o ATP libera 2 moléculas de fosfato, forma-se o AMP (monofosfato de adenosina). A hidrólise do ATP ocorre com ou sem a disponibilidade de oxigênio, sendo essa uma reação rápida e anaeróbica. Esse processo permite a liberação de energia rápida para uso imediato, o que não ocorreria se o processo em questão fosse dependente do oxigênio.

O ATP é armazenado em pequenas quantidades nas células e essa molécula não pode ser fornecida através do sangue, sendo que sua concentração está confinada a uma ressíntese contínua, que deverá ocorrer no mesmo ritmo com que essa molécula é utilizada.

A quantidade total de ATP no organismo encontra-se por volta de 80 a 100g, sendo suficiente para a manutenção de um exercício físico máximo por apenas alguns segundos. Nos momentos iniciais do exercício ou numa situação onde seja exigido uma contração muscular rápida e explosiva, onde as concentrações de ATP diminuem significativamente, a ressíntese de ATP ocorre a partir de outro composto de alta energia denominado CP (fosfato de creatina), sendo esse essencial durante a passagem de uma baixa para uma alta demanda energética.

O CP é considerado "reservatório" de fosfato de alta energia, sendo que sua concentração celular é 4 vezes maior que a de ATP. A hidrólise do CP aciona a ressíntese de ADP, sendo que se houver energia em quantidades suficientes, a creatina (C) e o fosfato (P) podem novamente formar o CP.

Assim sendo, fica evidente que a energia perdida por algumas moléculas pode ser transferida para a estrutura química de outra molécula, sem ser perdida na forma de calor, sendo essa característica de vital importância para a manutenção do trabalho celular e, no caso do exercício físico, para a contração dos músculos nos momentos iniciais da atividade.

A creatina foi identificada em 1835, sendo que sua suplementação tomou popularidade a partir dos Jogos Olímpicos de 1992, onde atletas britânicos, incluindo medalhistas de ouro, declararam utilizar esse tipo de suplemento.

A creatina ou ácido metil acético-guanidina é encontrado em abundância no músculo esquelético, e em menor quantidade no cérebro, fígado, rins e testículos. No homem com um peso médio de aproximadamente 70kg, a quantidade total de creatina é de cerca de 120g .

Além de estar presente nos alimentos, principalmente os de origem animal (carnes em geral), a creatina pode ser sintetizada (Figura-1), no fígado, através de 3 aminoácidos (Glicina, Arginina e Metionina), sendo transportada posteriormente para o tecido muscular, onde aproximadamente 95% do seu total se encontra estocado. Aproximadamente 60% da creatina presente no músculo, em repouso, se encontra na forma de fosfato de creatina (CP). A suplementação oral de creatina parece diminuir sua produção endógena, mas essa diminuição é revertida quando a suplementação é interrompida. A quantidade de creatina corporal é relativamente instável, com uma reposição diária de aproximadamente 2g. No entanto essa quantidade depende de vários fatores, tais como: ingestão pela dieta, idade, sexo, e quantidade de massa muscular.

Tem sido proposto dois mecanismos para esclarecer as altas concentrações de creatina dentro do músculo. O primeiro envolve o transporte de creatina por um processo saturável específico de entrada, o segundo requer a captura da creatina dentro do músculo. Recentes estudos demonstram que a entrada de creatina dentro dos músculos ocorre ativamente contra um gradiente de concentração, possivelmente envolvendo a interação entre a creatina e um sítio específico de membrana, o qual reconhece o grupo amida.

Recentemente, foi identificado um transportador de creatina sódio dependente, no músculo esquelético, coração e cérebro. Isso sugere que na musculatura esquelética o sistema de transporte não seja saturável, desse modo suportando a idéia de captura intracelular desse ácido. Essa captura irá resultar na geração de um gradiente de concentração, mas a fosforilação parece não ser o único mecanismo celular de retenção de creatina. Outros mecanismos têm sido propostos, inclusive a ligação de componentes intracelulares e a existência de membranas celulares restritivas.

A creatinina é o único produto final da degradação de creatina, sendo formada por uma reação reversível não enzimática. Sendo o músculo esquelético o principal estoque de creatina corporal, esse se torna o principal sítio de produção de creatinina. Diariamente a excreção renal de creatinina é relativamente constante, mas pode variar individualmente, e é dependente da massa muscular total em indivíduos saudáveis. Uma vez gerada, a creatinina entra na circulação por difusão simples e é filtrada pelos rins por um processo independente de energia, sendo posteriormente excretada na urina.

Em indivíduos vegetarianos, a maior captação de creatina ocorre durante a fase de "loading" da suplementação, sugerindo que a síntese endógena pode não suprir o requerimento de creatina nesses indivíduos. Recentes estudos demonstram que a ingestão de creatina resulta num pequeno aumento na excreção de creatinina e, em geral, a excreção urinária de creatinina aumenta levemente com a suplementação após 5 semanas, retornando aos seus valores iniciais posteriormente a esse período.

A ingestão de 20g de creatina/dia, durante um período de 5 dias, pode elevar em mais de 20% a concentração total de creatina muscular, da qual aproximadamente 20% está na forma de fosfato de creatina. A maioria dos estudos envolvem a ingestão de 5 gramas de creatina, quatro vezes ao dia, em líquido morno, onde se torna mais fácil dissolver a creatina. Indivíduos que apresentam perdas nas concentrações de creatina muscular respondem melhor à suplementação. No entanto, algumas pessoas podem ter um benefício maior que outras.

O procedimento supra citado está de acordo com recentes estudos onde foi demonstrado que o maior consumo de creatina pelos tecidos ocorre nos primeiros dias de suplementação, sendo que 30% dessa retenção acontece nos primeiros 2 dias, e 15% nos dias sucessivos até o 4o dia. Essa manobra suplementar se mostrou mais eficiente do que a ingestão de 3g creatina/dia, durante 3 semanas, porém, após um período de 4 semanas as concentrações musculares de creatina não apresentaram diferenças com a utilização desses dois métodos. Os indivíduos do sexo feminino, parecem ter um aumento ligeiramente menor no conteúdo de creatina quando comparado com os homens. Provavelmente, isso seja conseqüência da menor massa muscular. Dessa forma, a sobrecarga de 20g de creatina/dia, durante 6 dias, e 2g/dia como dose de manutenção, parece ser a maneira mais rápida de se aumentar o conteúdo muscular de creatina. Além disso, quando um exercício submáximo é realizado durante o período de suplementação, a captação de creatina pelo músculo aumenta em aproximadamente 10%.

A ingestão de creatina junto com carboidratos parece aumentar a retenção de creatina nos músculos por volta de 60%, quando comparado a ingestão de uma solução contendo apenas creatina, porém, o músculo tem um limite superior para armazenamento de creatina que não pode ser excedido (160mmol/kg-1 de músculo seco). Isso significa que, uma vez atingido o referido limite, a concentração de creatina não irá aumentar mesmo que se ingira altas doses desse elemento.

Como citado anteriormente, dentro do músculo, o CP é utilizado para regenerar o ATP a partir do ADP, dessa forma, a utilização do CP pode ser um fator limitante para a performance muscular durante exercícios de alta intensidade e de curta duração, quando a suplementação de creatina poderia auxiliar no aumento da concentração da CP tendo um efeito ergogênico auxiliar para esse tipo de atividade física.

No entanto, existem controvérsias quanto a esse papel da creatina. Essa discrepância parece ser devido a uma série de fatores, como por exemplo:

  • não aumento da creatina muscular em resposta à suplementação devido a maior concentração inicial de creatina;
  • a creatina muscular não é o fator limitante em alguns protocolos de exercício utilizados, tal como sprint de natação;
  • a recuperação longa e de maneira ativa entre os intervalos de exercício aplicados em vários estudos.

Dessa forma, o efeito ergogênico da creatina é ainda debatido, e parece depender do tipo de exercício, de suas concentrações iniciais e outros fatores associados à performance.

Nos próximos artigos serão discutidos aspectos como: os diferentes sistemas energéticos que atuam durante o exercício físico; a suplementação de creatina como agente ergogênico na performance física; e os riscos associados à suplementação de creatina. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

      1. MAughan, R.j.; Nutrition in Sport . Oxford, UK., cap. 27, 2000.

      2. Williams, M.H.; Kreider, R.B.; Branch, J.D. Creatine - the power supplement. Human Kinetics, USA., 1999.

      3. Ronald, L.; Clarkson, P.; Richner, E.R.; Greenhalff, P.L.; Hespel, P.J.; Israel, R.G.; Kraemer, W.J.; Meyer, R.A.; Spriet, L.L.; Tarnapolsky, M.A.; Wagenmakers, A.J.M.; Williams, M. H. The physiological and health effects of oral creatine supplementation. Medicine & Science In Sport & Exercise, Indianapolis, IN., 1999.