Aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA): EFICIÊNCIA A TODA PROVA

Autor:

Nutricionista e Prof. de Educação Física:

  Reinaldo Abunasser Bassit (Tubarão)

Mestrando do Laboratório de Metabolismo do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo

É sabido que o exercício físico produz mudanças significativas no metabolismo corporal. As forças que determinam a magnitude dessas mudanças, assim como, suas alterações específicas são determinadas pela intensidade e duração do esforço. Dentre as mudanças ocorridas, destacam-se as alterações do perfil hormonal, e das concentrações plasmáticas dos aminoácidos, particularmente os BCAA (principalmente a  leucina) e a glutamina.

Aminoácidos

O que é um aminoácido?

Aminoácidos são compostos formados por moléculas de carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio. São os principais constituintes das proteínas, as quais são formadas pela condensação dos grupamentos amino com os carboxilicos, e unidos por ligações peptídicas, formando uma cadeia linear.

Figura 1 - Estrutura básica do aminoácido. (Adaptado de Newsholme & Leech, 1989)

 R = radical

A seqüência de aminoácidos específicos é que determina as propriedades e funções das proteínas. Existem milhares de proteínas diferentes em uma única célula, e essas são formadas pela combinação dos 20 diferentes tipos de aminoácidos existentes. Só para se ter uma idéia, a combinação de apenas três tipos de aminoácidos é capaz de formar 8.000 tipos de diferentes proteínas.

A maioria dos aminoácidos presentes no organismo esta incorporada a uma proteína, porém, uma pequena parte (0.5 a 1 %) do total de aminoácidos do corpo esta presente como aminoácidos livres no plasma ou nos espaços intra e extracelulares. Contudo, essa quantidade relativamente pequena, é capaz de influenciar diversos processos metabólicos.

Dos aminoácidos presentes no plasma os mais abundantes são a glutamina (considerado não essenciais), leucina, isoleucina e valina, os BCAA, (considerados essenciais). A glutamina participa de vários processos metabólicos no organismo. Esse aminoácido é encontrado em altas concentrações no músculo esquelético e no plasma, e seus principais efeitos estão relacionados à estimulação da síntese protéica e manutenção do volume muscular, assim como, ao aumento da função imunológica do organismo. O músculo esquelético é um grande produtor de glutamina e libera grandes quantidades desse aminoácido para a circulação, principalmente em situações de infecções, cirurgias e sépsis. Essa aporte extra de glutamina tem com um dos objetivos potencializar a ação do sistema imunológico, já que as células do sistema imune (macrófagos e linfócitos) dependem de glutamina para sua atividade.

A glutamina quando ingerida na forma de aminoácido isolado é utilizada em grande quantidade por enterócitos (células do intestino). Dessa forma a suplementação oral de glutamina com a finalidade de evitar o catabolismo e potencializar o anabolismo em atletas engajados em atividades físicas exaustivas, assim como, potencializar a função do sistema imunológico, evitando gripes e resfriados, não seria efetiva, uma vez que seria consumida em larga escala pelas células intestinais. Porém, a ingestão de dipeptídeo de glutamina (glutamina associada a outro aminoácido) garantiria uma melhor absorção intestinal e, conseqüentemente maior eficiência da concentração desse aminoácido no sangue. Por outro lado, o músculo esquelético é capaz de produzir glutamina a partir da oxidação dos BCAA.

O músculo esquelético tem a capacidade de oxidar vários aminoácidos, porém, os BCAA são os aminoácidos preferivelmente e mais rapidamente oxidados. É atribuída a esses aminoácidos a capacidade de atrasar a fadiga central; aumentar a performance mental; favorecer o anabolismo muscular; "frear" ou diminuir o catabolismo; aumentar a função imune através da manutenção das concentrações plasmáticas de glutamina; favorecer a neoglicogênese (formação de glicose por aminoácidos - ciclo alanina- glicose) e pode, ainda, funcionar tamponando o ácido láctico através da formação de alanina, resultando em atraso na fadiga local.

Durante o exercício físico intenso e prolongado a oxidação de BCAA, pelo músculo esquelético, excede sua oferta da circulação. Esse fato leva a uma diminuição das concentrações plasmáticas de BCAA, além de uma menor produção do aminoácido glutamina. Como conseqüência, ocorre um desequilíbrio de aminoácidos, podendo acarretar em fadiga central. Além disso, essa baixa concentração de glutamina está relacionada com a diminuição da função imunológica de atletas, levando a incidências de várias infecções, principalmente as do trato respiratório superior (faringite, laringite, sinusite, resfriados, etc). Dessa forma entendemos que nesses casos a suplementação com BCAA se torna de vital importância porém, essa suplementação deve ser orientada por um profissional especializado (nutricionista), que irá analisar cada caso em particular.

Desta forma, fica evidente que a suplementação com BCAA se faz necessária em certas situações de estresse como: traumas; sépsis; estados pós-cirúrgicos; estados de inadequação alimentar combinado com atividades físicas regulares e intensas; em atletas de elite que são submetidos a exercícios intensos e prolongados; ou em atletas amadores e praticantes de atividades físicas, onde geralmente há uma inadequação da dieta aliada  a uma atividade física intensa e desordenada, sem o devido descanso para uma ótima recuperação corporal.

 

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